PRYSCILA VIEIRA

mulher, curitibana, cartunista, formada em Design pela PUC-PR. aos 16 anos ganhou seu primeiroSalão de Humor Universitário de Piracicaba, repetiu o feito nos dois anos seguintes. coordenou em 1988 a Bienal de Humor do Mercosul, com os principais nomes do humor gráfico. itinerante, a exposição passou pelas principais cidades do Brasil, Paraguai e Argentina.

Pryscila já trabalhou para os jornais: Gazeta do Povo, Metro Internacional e Folha de São Paulo. além de fazer vinhetas animadas para a Rede Globo durante 7 anos.

no currículo ainda, a moça estagiou na agência de Z. Publicidade em 1996. em 1997 foi contratada pela agência Umuarama, do grupo HSBC Bamerindus. foi selecionada para vários salões de humor do país e exterior, conquistando o terceiro lugar entre cerca de seis mil candidatos no Salão Internacional de Foz do Iguaçu. melhor colocação de uma mulher em concursos de humor gráfico do planeta. é a criadora dos personagens da campanha de separação de lixo da cidade de Curitiba. teve seu trabalho, a personagem Amely, selecionada pelo concurso de novos talentos da Folha de São Paulo em 2006.

afim de ver mais textos, tirinhas, cartuns e inutilidades variadas? basta visitar o site da moça: pryscila-freeakomics, curta também a página no facebook: Amely

Pix – Você começou a sua carreira de chargista aos 14 anos num jornal de Curitiba e em 1999 se formou na faculdade de Design da PUC-PR. O que mais te atrai: o humor gráfico ou o trabalho com publicidade?

Pryscila: Quando comecei a trabalhar, nem sabia exatamente o que era cada coisa. Fui tateando todas as possibilidades de atuação que o dom de desenhar te proporciona na publicidade e no meio editorial. Hoje que conheço bem como funcionam essas áreas, posso ao menos afirmar que a publicidade não funciona sem o humor gráfico. Então, dou preferência para a matriz: humor gráfico. E é mais gostoso expressar a própria opinião sem obrigação de vender um produto ou idéia alheia, sem ter que seduzir, sem ter que ser sexy.

Pix – Quem é a Amely? E em quem você se baseou para criá-la?

Pryscila – Segue o release da moça…
Amely é uma boneca inflável que foi batizada sob esta graça por conta do samba de Mário Lago intitulado “Ai que saudades da Amélia”. A tal Amélia deixava saudades por ser uma mulher de verdade, ou seja, um exemplo de resignação feminina. Só que Amely destrói o mito de que a “mulher de verdade” deve se anular em prol do seu parceiro. Amely chega por encomenda à casa de seu comprador com dois grandes e irreversíveis “defeitos de fabricação” segundo o publico masculino: o primeiro é que ela pensa. O segundo defeito é que ela fala… e muito!  Isto a transpõe do patamar de “mulher inflável” para o de “mulher infalível”.  Amely torna-se “a mulher de verdade”. Adquire vontade, iniciativa e independência apesar de seus “proprietários” não esperarem nada dela além do que um objeto sexual proporciona. Os quadrinhos da Amely tratam dos sentimentos e pensamentos de alguém que não esperamos que os tenha, muito menos que os expresse tão veementemente. Infelizmente no mundo machista que vivemos, algumas mulheres ainda se deparam com situações semelhantes na sociedade e no mercado de trabalho.

 

 

 

 

 

 

Pix – Você já foi censurada por alguma tira da Amely?

Pryscila – Trabalho com pessoas inteligentes e confiantes que me dão total liberdade para criar, o que resulta em diálogo. Já fui convidada a refletir melhor sobre as consequências de

um trabalho a ser publicado, por exemplo. Mas enquanto houver divergência, haverá inteligência. Nunca senti o amargo sabor da censura alheia, enquanto eu me censuro o tempo todo senão desperto o Marquês de Sade que vive no meu hipotálamo.

Pix – Você tem outros personagens? Fale sobre eles.

Pryscila – Ultimamente a Amely tem consumido todas as cores da minha paleta de personagens autorais. E por ora, acho que Amely ainda é necessária representante do tão garimpado bom humor feminino. Quando vir outras missões, talvez sinta pressão psicológica suficiente para gestar outras personagens. Mas preciso me sentir engajada. P.S. Aceito causas.

Pix – Como se deu a aceitação de uma mulher bonita, talentosa e profissional num campo onde os homens predominam?

Pryscila – Bonita fica por conta de mamãe e do meu marido, que me acham o ser vivo mais lindo do planeta. Agora, talento e profissionalismo são gêmeos siameses. Não adianta ter talento sem saber empreendê-lo. Na antiga Grécia, “talento” era o nome da moeda corrente. Sempre penso no talento como uma herança, talvez dos deuses mas muito mais da disposição e da boa vontade em mantê-lo. Sinto-me responsável por aplicar essa valiosa herança em boas ações, em algo que me faça feliz e que ao mesmo tempo tenha um valor social, que para mim é o da reflexão e da graça. Sinto que tenho que ser responsável com as próprias dádivas.

Pix – Quais são suas referências nos quadrinhos?

Pryscila – Muitos caras geniais… Mas se for para ir para uma ilha deserta com um cartunista (a obra!) seria o Ziraldo, dono do estilo de comunicação mais fluido que conheço. Fala com criança, com adulto, com idoso, com todo mundo com a mesma maestria. Seus desenhos estupendos são a personificação de suas idéias finamente arquitetadas com equilíbrio calculado entre razão e a mais doce inteligência emocional. Dizer que Ziraldo é um cartunista, um escritor, um artista… isso tudo seria limitar um dos maiores criadores de nosso tempo a um simples desígnio do que insuficientes palavras alcançam. Amém.

Pix – Você ganhou o seu primeiro Salão de Humor de Piracicaba aos 16 anos, e repetiu o feito nos dois anos seguintes. Como é dividir esse espaço com grandes nomes do humor e do cartum?

Pryscila – É emocionante, alegra, enobrece. Mas também recai como uma pesada responsabilidade de fazer cada dia algo melhor. Desperta o perfeccionismo. E esses grandes nomes são “musos” inspiradores que, como já falamos, empreendem com paixão as próprias dádivas, coisa que procuro fazer.

Pix – Como é a sua relação com o Ziraldo? Qual a importância dele na sua carreira?

Pryscila – Já falei que ele é um dos maiores nomes da comunicação, do desenho e da arte do nosso tempo? Admiro muito a obra dele e posso dizer que ele teve uma influência positiva sobre meu trabalho.

Pix – Você fez vinhetas animadas para a Globo. Conte-nos como foi esse trabalho.

Pryscila – Olha só! Fui parar na Globo por indicação de quem? Adivinha… Ziraldo, o meu “fada madrinha”. E era uma delícia de fazer. Durante sete anos fiz essas vinhetas. Acho que elas deveriam voltar. As pessoas paravam para ver o tal Plim-plim. Chamava mais atenção do que o filme ou o comercial. Lembro das vinhetas do Borjalo, outra grande mente do cartum que tive a honra de conhecer pessoalmente. Que cartunista! Dêem um Google porque ele é old school.

Pix – Como foi participar do livro do Mauricio de Souza, o “MSP por 50 Novos Artistas”?

Pryscila – Contrariando a maioria que lê Turma da Mônica na infância, comecei a lê-la depois dos trinta, por conta do desafio de homenagear o Maurício de Sousa no “MSP-50 Novos Artistas”. Então, posso dizer que não apenas li, mas estudei o Maurício de Sousa num intensivão autodidata. Minha balzaquiana conclusão: Turma da Mônica é atemporal, universal, genial. E o Maurício é um dos brasileiros mais notáveis da história, que fez o que todo cartunista sonha: soube empreender o próprio talento até edificar um império.
O potencial comercial da Turma da Mônica extrapola o universo do gibi. A turma já cresceu e já beijou na boca, tem desenhos animados em 2d e 3d, peças de teatro, parques temáticos, circo, mais de 4 mil produtos licenciados, além de ser traduzida para diversas línguas. Nosso “Walt Disney tupiniquim” dominou o mundo. E eu, que me tornei colaboradora e fã, fui conhecer o estúdio da Turma da Mônica e o próprio Maurício que, aos 76 anos, ainda centraliza absolutamente tudo o que acontece por lá. Lê todos os roteiros, analisa todos os desenhos, aprova ou desaprova cada mínimo detalhe. É um incansável trabalhador, que justifica todo o mérito do seu sucesso com a perfeição que exige em sua obra. Bonito de ver. Impossível não admirar.

Pix – Quais são seus objetivos profissionais?

Pryscila – Depois de transformar a Amely em dramaturgia, tracei um plano objetivo. Acompanhe o passo a passo:
1- Vou prestar um concurso público para garantir um futuro financeiramente seguro.
2- Tendo passado nesse concurso, enrolarei meu chefe. Nas horas vagas vou desenhar bobagens com lapiseira Pentel 07 num bloquinho de anotações que caiba no bolso. Vou fazer isso por pelo menos cinco horas das oito que devo trabalhar.
3- Na sequência vou publicar um blog postando minhas bobagens desenhadas em horário de trabalho e vou divulgá-lo por toda internet. Farei isso nas outras três horas que me restam de trabalho na firma.
4- Depois de ficar rica, bonita e famosa enquanto cartunista-humana, vou dar um jeito de me aposentar do serviço público. (Pesquisas comprovam que fazer coco no corredor da repartição entoando “Macarena” em Ré Menor atesta insanidade mental, seguida de incapacidade para o trabalho. É aposentadoria na certa!)
5- Pronto! Depois desses quatro passos básicos, terei me tornado uma grande cartunista e ainda vou ganhar dinheiro. Não é genial?!

 

 

 

 

 

 

 

 

Pix – Qual o seu conselho para as mulheres que gostariam de ingressar no mundo dos quadrinhos?

Pryscila – O primeiro conselho é: não dêem conselhos. Mas se for para sugerir algo genericamente útil, aconselho que trabalhem a estrutura básica. Que leiam MUITO, que incansavelmente se aperfeiçoem na redação, no texto, no contexto e que se esmerem na arte do desenho. Isso tudo nunca é demais. E quando sentir que seu trabalho está com esses quesitos em equilíbrio, existem infinitas possibilidades de projetá-lo. A internet é uma delas. Concursos de humor gráfico, outra. Mas aí, filhinha, o destino é uma folha em branco que vai ser rabiscada ou desenhada com litros de nanquim e suor.