WES SAMP

Resultado de imagem para WESLEY SAMPO brasiliense Wesley Samp publica quadrinhos desde 2007, quando iniciou sua série de tiras “Os Levados da Breca”. Sua tira mais recente, “Cada um com seus problemas!”, é publicada no site Depósito do Wes.

Wesley também publicou três coletâneas impressas: “Depósito do Wes – o livro”, “As filosofias de recreio de Paulo e Wes” e “Cada um com seus problemas!”.

Wes, onde, quando e como você começou no mundo dos desenhos?

 

É uma pergunta que sempre me fazem e eu não sei responder. Na verdade, quando me perguntam quando comecei a desenhar, digo apenas que nunca parei, como a maioria das pessoas faz quando sai da infância. Fui treinando, treinando, e ainda estou aqui, treinando e treinando.

 

Qual foi o seu primeiro personagem? Em quem ele foi inspirado?

 

O primeiro personagem da minha vida eu criei muito novo, acho que com uns 6 ou 7 anos. O nome era Bole Mole, e era basicamente um cara bem narigudo. Não tive uma influência específica na época, apenas queria um personagem cômico.

 

Seus personagens são centrados nas crianças, adultos não aparecem em suas tirinhas, por quê?

 

A ideia disso foi deixar o foco todo nas crianças. Os adultos aparecem raramente, e de maneira muito vagam de relance ou com um mero balão de texto. E, certamente, isso veio da minha influência na obra do Charles Schultz (Peanuts), que fazia o mesmo.

 

Quem são os Levados da Breca? Como eles surgiram? Em quem eles foram inspirados? Como surgiu o nome?

 

Uau, eu poderia escrever um livro só com essas perguntas! (risos) Mas vamos lá, bem resumidamente. Os Levados surgiram por acaso, há quinze anos, quando eu fiz caricaturas em estilo cartum de mim mesmo e de alguns amigos da escola. Achei o visual muito bom e pensei que valeria a pena transformá-los em personagens.

 

Inicialmente eu os chamava de VSW Kids, em referência a um grupo que eu tinha com amigos de escola. Nós fazíamos uns vídeos e batizamos essa “produtora” de VSW Produções. Como a maior parte dos primeiros personagens eram baseados na galera desse grupo, adotei o nome. Mas, quando decidi trabalhar com esses personagens de maneira mais séria, percebi que o nome não era bom, não diria nada para o leitor. E queria evitar coisas óbvias como a “Turma do Fulano”, especialmente porque não queria que a série ficasse vinculada a um personagem específico. E sempre tive mania de usar expressões meio velhas. Acabei pensando em “Os Levados da Breca” e gostei.

 

Quais as técnicas que você utiliza em seus desenhos? Como eles são feitos? (técnicas de pintura, software utilizado, etc…).

 

Isso é uma coisa que tem mudado muito ao longo dos anos, e continua mudando. Hoje eu desenho no papel, a lápis, e finalizo com nanquim. Daí digitalizo e, no computador, trato a imagem, aplico cores, texto e desenho os balões e quadros. Uso Photoshop e InDesign para isso.

 

Recentemente comprei uma mesa digitalizadora e tenho treinado com ela. Por enquanto tenho apenas coloridos as tiras utilizando caneta digital, mas já estou arriscando fazer a arte-final de alguns desenhos no computador, substituindo o nanquim. Só que ainda dependo do lápis no papel para a primeira etapa do processo.

 

Como é um dia na vida do Wes? Você faz um horário rígido para o seu trabalho? Como se dá o processo de criação das histórias?

É uma coisa bem caótica. (risos). Eu, como a grande maioria dos produtores de webcomics no Brasil, não vivo do meu trabalho online e tenho outro emprego. Por isso, preciso conciliar horários e trabalhar nas brechas do dia-a-dia. Tento disciplinar um horário diário pra isso, mas ainda não consegui.

 

As histórias, por serem curtas e quase sempre isoladas entre si, vem em “insights”, quase sempre. Aquela ideia que surge em qualquer momento e vou anotando para utilizar depois. Mas muitas vezes preciso fazer uma tira e não tenho nenhuma ideia na cabeça, e vou olhar minhas anotações mas não gosto de nada. Aí é um martírio! (risos) Vou tomar uma ducha, dar uma volta ou ler alguma coisa, pra refrescar a cabeça e tentar puxar alguma coisa. Outras vezes, pego um tema ou um personagem e me forço a pensar em alguma situação em torno disso. Como pode ver, um caos completo.

 

Sobre a valorização das escolas e livros didáticos, que tem sido feita em relação as HQs, no currículo escolar. Como você vê essa prática? Acha que a partir da leitura de gibis dá para criar um perfil leitor? Através da leitura do HQ podem-se motivar os alunos a buscar um mundo cada vez maior da leitura?

 

Acho que os quadrinhos sempre são uma alternativa interessante na formação de leitores. Crianças gostam de gibis. O problema tem sido manter essa turma atenta aos quadrinhos, já que a concorrência é cada vez maior: Cinema, TV, games, internet. Mas, se a história é boa e os personagens, cativantes, a criança vai se envolver.

 

Mas acho muito válido levar os quadrinhos para as escolas. Com critério, claro, para evitarmos absurdos como os que aconteceram recentemente, quando distribuíram quadrinhos adultos para alunos do ensino fundamental.

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Você tem algum projeto voltado para a escola? Alguma tirinha sua já foi usada em aula? Você tem conhecimento disso?

 

Não tenho nenhum projeto encabeçado por mim, mas é relativamente frequente que editoras entrem em contato solicitando autorização para utilização das tiras dos Levados em livros didáticos. Já tem alguns por aí, nas escolas. Até recebi foto de leitor do blog que se assustou quando abriu o livro e viu uma tirinha minha por lá. (risos). Acho muito divertido e fico orgulhoso em saber que meu trabalho pode ser instrutivo de alguma forma.

 

Ano passado, o Ziraldo polemizou ao dizer durante o 44º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, ao dizer que: “Nós temos uma literatura infantil forte, um teatro infantil forte, mas isso não se reflete no cinema. Por que a literatura não passa essa ideia aos cineastas?”. Ziraldo fez essa afirmação incomodado com o fato das crianças não terem obras cinematográficas de qualidade direcionadas a elas. Você acha que os quadrinhos no Brasil, deveriam ter mais incentivos junto ao poder público para que novas produções fossem produzidas visando diminuir essa carência do cinema brasileiro?

 

Eu não sei se cabe ao governo intervir desse modo nesse tipo de produção cultural. Quer dizer, o cinema nacional hoje já é brutalmente dependente do financiamento público, que acontece com as leis de incentivo e tudo mais. Ou seja, já tem o envolvimento do governo nessa produção. Mas não acho que cabe ao governo dizer que o dinheiro tem que ser usado para filme infantil, ou filme de ação, ou qualquer outro gênero. Acho que é um problema de demanda. Mas o fato é que não temos filmes assim, mas o público pedindo por isso também. E a falta de interesse do espectador acaba gerando desinteresse também de quem produz. Talvez falte um diretor acertar um bom filme do gênero para despertar este segmento do cinema, não sei.

 

Você gostaria de levar Os Levados para o cinema?

 

Seria ótimo! Não tenho certeza quanto a filme com atores, mas uma animação seria, certamente, muito legal. Um grande desafio fazer com que os personagens dessas histórias tão curtinhas funcionassem numa história longa. Seria um ótimo desafio.

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Fale sobre o projeto Café com HQ, como começou de onde surgiu a ideia, como foi à aceitação por parte do público, e se os objetivos foram atingidos.

 

O Café com HQ é um grande xodó meu atualmente. Me divirto muito!

 

O projeto foi sugerido pelo Leonardo Maciel (nabundanada.com), que percebeu que no Brasil ainda não havia um podcast específico sobre webcomics. A ideia partiu dele, que convidou a mim, além do Will Leite (willtirando.com.br), Rafael Dourado (sapobrothers.net), Rodrigo Chaves (contratemposmodernos.blogspot.com), André Farias (vidadesuporte.com.br), Marcos Noel (giekim.com) e Rafael Marçal (proféticos.com) para tocarmos o projeto. Queríamos chamar muito mais gente, mas seria inviável fazer um podcast com tanta gente, então fechamos este elenco-base e ficamos de convidar o resto da turma aos poucos, na medida em que os temas fossem pedindo por novas participações.

 

A proposta do podcast é bem simples: Registrar um bate-papo informal entre produtores de quadrinhos para a internet, falando sobre os vários aspectos do tema. A questão é que, quando a gente se reúne, tudo fica muito divertido e achamos que isso fica bem evidente no podcast. Nosso foco é trocar experiências e opiniões e repassá-las para os demais produtores de webcomics – especialmente a galera mais nova, que está começando agora. Mas percebemos que o podcast também tem chamado a atenção de outros profissionais da área, além de alguns leitores também, que gostam de acompanhar as besteiras que os autores falam. (rs)

 

É ótimo, todos estamos aprendendo muito com o processo e, principalmente, o Café tem permitido criarmos e expandirmos a amizade entre um grupo muito bacana.

 

Você como leitor, o que curte nos quadrinhos?

 

Eu cresci lendo quadrinhos de super-heróis e de humor. Mas, do primeiro gênero, tenho lido muito pouco, acho que a produção atual anda meio fraca. Acabo me restringindo aos encadernados dos trabalhos que mais aprecio

 

E tenho lido muita coisa de outros gêneros também. Quino (Mafalda), que só descobri depois de por o blog no ar, virou uma das minhas referências. Tenho gostado muito do Liniers (Macanudo) também. O Schutz, que já citei, e o Bill Watterson (Calvin & Haroldo) são outras referências óbvias.

 

Também tem o Mauricio de Sousa, que é uma referência seminal. E as três coletâneas com releituras dos seus personagens nas mãos de outros autores são sensacionais! Tenho todas elas aqui, e adoro.

 

Tem o mineiro Vitor Cafaggi, que ficou conhecido com seu trabalho em Puny Parker (punyparker.blogspot.com), contando a infância do jovem Homem-Aranha, e que agora está fazendo uma série nova, a do Valente, que saiu em coletânea impressa no ano passado. Recomendo para qualquer pessoa, de qualquer idade. É lindo, emocionante.

 

E tem os quadrinhos online, claro. Muita coisa. Além dos amigos do Café, não posso deixar de recomendar o Mentirinhas (mentirinhas.com.br), Malvados (malvados.com.br), Ryotiras (ryotiras.com), Os Passarinhos (ospassarinhos.com.br), O Diário de Virgínia (odiariodevirgina.com)… Poderia passar o dia aqui fazendo sugestões de ótimos trabalhos, tem muita coisa boa, muita mesmo, sendo publicada na web.

 

Qual conselho você daria a quem está iniciando?

 

Treine, treine muito. Não se afobe, porque a regra é que nenhuma recompensa vem fácil, nem rápido. E sempre tenha em mente que só vale a pena entrar nessa maluquice que é fazer quadrinhos se você gostar.